Resenha do livro HISTÓRIA DE QUEM FOGE E DE QUEM FICA – Elena Ferrante (terceiro volume da Série Napolitana)

15.07.2017

O terceiro livro da Série Napolitana, HISTÓRIA DE QUEM FOGE E DE QUEM FICA mantém a mesma qualidade dos outros volumes, mas agora a amizade entre Elena e Lila cede espaço, como tema central, para a crescente tensão social na Itália da década de 70. A violência do bairro que Elena narra no primeiro livro, A AMIGA GENIAL, ainda existe, mas está mais intensificada pelas lutas da classe operária por melhores condições de trabalho, uma batalha entre esquerdistas e fascistas e também entre os intelectuais e os trabalhadores. E continua a conturbada relação da narradora com sua amiga Lila, uma mulher de grande inteligência e sentimentos sempre à flor da pele, que não sei ao certo que tipo de amizade tem por Elena, pelo menos eu não consegui entender até agora e acho mesmo que nem vou conseguir... Mas o fato é que a vida das duas segue se cruzando.

 

Enquanto HISTÓRIA DE UM NOVO SOBRENOME (o segundo volume da série) focou bastante nas questões românticas, este livro expande o universo da narradora e de sua amiga e por isso mesmo tornou-se muito mais político e social, afinal a década de 70 foi uma época conturbada na Itália: as divergências ideológicas, os ataques terroristas, os movimentos estudantis e trabalhistas foram tantos que, é claro, acabaram influenciando a vida das personagens.

 

Nesse volume a vida das duas amigas se separa mais efetivamente, embora continue com seus paralelos: Elena na faculdade, onde conhece o futuro marido e aumenta sua influência social, começa a escrever e a ter sucesso, e Lila em Nápoles, após deixar o marido, se torna uma pária para a família e boa parte dos amigos.

 

A relação entre as duas também está muito mais hostil neste livro. Apesar de viver separada de Lila e de encontrá-la poucas vezes, Elena, a que foge, ainda sente uma grande influência dela em sua vida: continua a se espelhar na amiga e, em todas as decisões que precisa tomar, fica imaginando o que ela pensaria, se daria sua aprovação ou não.  Além disso, Elena continua atormentada por questões de identidade: à medida que se afasta de Nápoles, da família e dos antigos amigos e tenta se reinventar como uma senhora casada e culta, autora de livros, permanece com suas contradições quase que como no livro anterior, só que agora notamos mais nitidamente que isso é mais coisa da sua cabeça do que da realidade que é a sua vida atual. E essa aparente fragilidade (e/ou complexo de inferioridade) é alimentada por Lila, já que a cada reencontro ou conversa por telefone com ela, Elena tem que lidar com o aparente desprezo que a amiga parece sentir das suas conquistas, sempre diminuindo suas vitórias: como antes, Lila continua a ser uma personagem com personalidade bastante complexa, ora parece boa, ora é simplesmente detestável a meu ver! Não sei se gosto dela!

 

Lila, a que fica, começa o terceiro livro em situação lastimável, vivendo em um bairro mais pobre ainda de Nápoles, separada do marido como já disse e em um casebre que ela sustenta ao lado de Enzo, um novo (velho) companheiro, com longas horas de trabalho numa fábrica de embutidos. Ao reencontrar Pasquale, o comunista do seu antigo bairro, ela começa a se envolver também nas discussões sobre direitos trabalhistas, entrando em conflito com o dono da fábrica, acabando por desencadear uma briga perigosa entre os revolucionários e os fascistas, e tudo isso a leva a ter um colapso. É neste momento que ela e Elena se reencontram, e quando a narradora tenta, através da escrita, ajudar a amiga.

Depois desse terrível período, passo a passo, Lila e Enzo conseguem melhorar de vida ao se especializarem na implementação de sistemas de informática nas fábricas e Elena segue sua trajetória de escritora de sucesso, agora com alguns percalços na vida pessoal, mas não vou dar spoiler...

 

Este terceiro volume também é bastante intenso, continua trazendo à tona uma série de temas políticos sociais de uma conturbada época italiana, enquanto revela os pensamentos e as contradições de suas personagens principais.

 

O que mais está me fascinando nessa Série Napolitana de Elena Ferrante é a habilidade que ela tem de nos mostrar que o papel da mulher na sociedade foi, é e sempre será fundamental na história do mundo! E ela faz isso de uma maneira tão natural, que as duas personagens centrais não se tornam pessoas radicais, intransigentes ou chatas sob esse aspecto: são mulheres comuns, com seus conflitos e suas diferenças, suas lutas com vitórias e/ou derrotas, com suas esquisitices e suas normalidades como a maioria de nós mulheres ao longo de nossas vidas! Ela criou essas duas personagens tão palpáveis que me parece irreal que Elena e Lila não estejam realmente por aí, andando pelo mundo... e eu acho que realmente estão, que de repente posso esbarrar com uma delas num canto qualquer!

 

 


 

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Maria Cláudia de Macedo Miranda Marandino

 

Resendense de nascimento e carioca desde os meus três anos, sou professora (aposentada) especializada em alfabetização e pré-escolar. Amo ler pelo simples prazer de ler! Não sou especialista em literatura mas vou colaborar no 1 olhar com o resumo que faço de cada um dos muitos livros que leio na esperança de despertar o leitor que sei que vive dentro de cada um de nós: todos somos leitores, basta que o livro certo nos encontre!

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