Resenha do livro HISTÓRIA DA MENINA PERDIDA – Elena Ferrante (Quarto volume da Série Napolitana)

22.07.2017

 

 

 

 

Este quarto e último volume da Série Napolitana nos traz a vida adulta das duas amigas e nos leva ao ponto de partida de toda a tetralogia – Elena e Lina já são senhoras sexagenárias, mas a cumplicidade de outros anos, que existia apesar da amizade bastante conturbada, desvaneceu-se. Na verdade nesse livro o que esperamos mesmo é ver resolvido o mistério do primeiro volume: saber onde está Lila, descobrir de que maneira ela conseguiu sumir completamente como sempre havia afirmado que gostaria de fazer, sem deixar sinal de que um dia existiu.

 

Logo no primeiro volume ficamos sabendo que, com esse súbito desaparecimento de Lina, Elena resolveu contar a história das suas vidas, nos oferecendo o que acabamos conhecendo como Série Napolitana: munida das suas recordações ela nos ofereceu o seu ponto de vista dessa amizade estranha, diferente e bastante conflituosa, que sempre a uniu e unirá a Lila.

 

Dessa vez teremos Elena, junto com as filhas, de volta a Nápoles após mais uma separação traumática de uma segunda relação. No âmbito profissional ela está muito melhor do que no pessoal: seus dois primeiros livros sobre a vida em Nápoles e questões do feminismo, conquistam certa fama. Além disso, seu terceiro livro, ainda mais revelador e que se alimenta basicamente das histórias que viveu e ouviu no bairro, a torna um sucesso de vez. Agora ela escreve em diferentes revistas e jornais, fazendo palestras por diversas cidades italianas e também por outros países europeus. Mas a verdade é que Elena, mesmo se tornando uma profissional de sucesso e saindo por aí para apresentar seus livros e fazer palestras, continuou presa à sua relação com Lila e, sobretudo, ao bairro pobre onde cresceu.

 

Lila, que é o coração de toda essa série em torno do qual a vida de Elena gira desde a infância, sofre nesse livro a maior dor que uma pessoa pode ter em sua vida. Além desta tragédia específica, a gente fica com uma sensação frustrante de ver todo o potencial perdido de Lila que nunca pôde se desenvolver plenamente, talvez pela pobreza, talvez pelo fato de ser mulher, mas eu acredito que principalmente por causa da sua própria personalidade que nos faz muitas vezes até não gostar dela. E eu já confessei que não gostei, embora, nesse livro, por ter ficado muito mexida com seu sofrimento até tentei entendê-la um pouco melhor (confesso que compreendê-la foi uma tarefa difícil e nem sei se realmente consegui...).

 

O passar do tempo, além de trazer os personagens para a era digital, também nos mostra as mudanças sociais e políticas da Itália, não existe mais aquela atmosfera tensa e revolucionária dos anos 60 e 70. E essa transformação é descrita de uma maneira bastante sutil e gostosa, bem ao jeito de Elena Ferrante como pude perceber que é a maneira de escrever dessa escritora que só descobri com essa tetralogia e que pretendo explorar mais nas minhas leituras.

 

Na verdade o que esse último volume realmente faz é continuar a retratar a relação entre Lila e Elena, que permanece turbulenta, pois por mais intimidade que conquistassem, sempre havia uma barreira impedindo que uma compreendesse a outra. Lila ainda tem suas mudanças bruscas de humor, sua instabilidade de comportamento continua sendo a de se interessar por algo e o deixar de lado logo depois, permanece alternando críticas e elogios à amiga pelas suas conquistas e tudo feito ao mesmo tempo, enfim, conserva aquela personalidade confusa que às vezes até beira a maldade.

 

E Elena ainda se sente fora de contexto como se não pertencesse àquele lugar onde as pessoas a tratam ora com respeito exagerado – “a escritora” –, ora usando o mesmo argumento para diminuí-la – alguém que não sabe nada da vida real, “só sabe dos livros”. Duas coisas que achei bem interessantes e curiosas dessa série: uma é essa briga de identidades – Elena não se sentir confortável em nenhum lugar, e a outra é perceber que o que a faz subir na vida até o fim é justamente o fato de estar sempre sendo espicaçada pela amiga de espírito mordaz e instável.

 

Esse é o livro mais complexo da série a meu ver – continua a explorar o cotidiano da mulher às voltas com o trabalho e com os filhos, com a família e os homens em diversas épocas, mas mesmo depois de tantas histórias, vitórias e derrotas, alegrias e tristezas (mais tristezas do que alegrias), idas e vindas nessa amizade, nascimentos e mortes no bairro, lutas políticas que deram certo e também não deram, a série termina sem que tenhamos um retrato claro de quem foi Lila, para onde ela foi e o que quis transmitir ao sumir: o que percebi foi que mesmo na maturidade, passando dos 60 anos, é ela que ainda incentiva a narradora a continuar a escrever ao sumir sem deixar o menor rastro.

 

Para mim Lila faz parte do que Elena é. Lila é Elena e Elena é Lila. Elena não existiria sem Lila, e aí nós não teríamos uma tetralogia com um retrato de vida tão complexo das experiências femininas e que, mesmo sendo esse um retrato bastante complicado, foi uma série que deu prazer de ler...

 

Que venham outros livros de Elena Ferrante para minhas mãos! Sinto que vai valer a pena...

 


 

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Maria Cláudia de Macedo Miranda Marandino

 

Resendense de nascimento e carioca desde os meus três anos, sou professora (aposentada) especializada em alfabetização e pré-escolar. Amo ler pelo simples prazer de ler! Não sou especialista em literatura mas vou colaborar no 1 olhar com o resumo que faço de cada um dos muitos livros que leio na esperança de despertar o leitor que sei que vive dentro de cada um de nós: todos somos leitores, basta que o livro certo nos encontre!

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