Resenha do livro LENDO LOLITA EM TEERÃ – AZIR NAFISI

29.07.2017

 Esse livro    já estava no que chamo minha “pilha de espera” já tem alguns anos. Lembro-me que na época eu o comprei porque sabia muito pouco sobre o Irã e queria entender melhor a história desse país e confesso que o fiz também porque me encantei pelo título e pela sinopse: "A autora iraniana Azar Nafisi nos conduz à intimidade da vida de oito mulheres que precisam encontrar-se secretamente para explorar a literatura ocidental proibida em seu país. Durante dois anos, antes de deixar o Irã em 1997, Nafisi e mais sete jovens liam em conjunto Orgulho e Preconceito, Madame Bovary, Lolita e outras obras clássicas sob censura literária. A narrativa de Nafisi remonta aos primeiros dias da revolução islâmica liderada pelo aiatolá Khomeini (1979), quando ela começou a lecionar na Universidade de Teerã, em meio a um turbilhão de protestos e manifestações. Obra de grande paixão e beleza poética que nos ajuda a entender os sangrentos conflitos do Irã com o vizinho Iraque, e a tirania do regime islâmico.” Mas fui deixando o livro de lado (como muitos outros que ajudam a crescer a “minha pilha de espera”...), e finalmente, nem sei bem porque, resolvi ler agora...

 

 

 

Nascida em Teerã, a autora deixou seu país aos 13 anos para estudar na Europa e nos Estados Unidos. Voltou ao Irã em 1979, logo após a Revolução Islâmica, e lá permaneceu por dezoito anos. Nafisi era uma entre muitos intelectuais iranianos que apoiaram a derrubada do Xá Reza Pahlavi, mas que depois se viram enredados no totalitarismo islâmico: os desdobramentos da Revolução Iraniana não confirmaram as esperanças e os sonhos da maioria desses apoiadores, pois na realidade o que aconteceu foi o total domínio da religião liderada pelo Aiatolá Khomeini. Apesar do regime ditatorial, Nafisi permaneceu no Irã e esse livro é o resultado de sua vida nesse período, é sua autobiografia. Eu já sabia que não gosto de biografia e agora descobri que também não gosto de autobiografia: tenho que parar de insistir nesse gênero literário...

 

Mas vamos continuar com os fatos do livro: enquanto dava aulas na Universidade de Teerã, Nafisi viu as leis mudarem e a independência das mulheres desaparecer: de repente elas se viram obrigadas a usar o véu, a não usar maquiagem e qualquer tipo de adorno, a esconder os cabelos e a só conversarem, em público, com homens que fossem seus familiares. A revolta com o uso obrigatório do véu fez com que Nafisi fosse expulsa da universidade e aí, por alguns anos, ela ficou sem dar aulas, até quando viu uma oportunidade em outra universidade, dessa vez já um pouco mais conformada com as novas regras, foi lecionar lá por um tempo. E nessas aulas, em que discutia livros clássicos da literatura universal, apresentava aos alunos temas para a reflexão sobre suas próprias vidas e sobre o estado constante de tensão no Irã. Quando novamente se viu impossibilitada de exercer a docência, Azar Nafisi formou um grupo de alunas que, na clandestinidade, liam e estudavam autores como Vladimir Nabokov, F. Scott Fitzgerald, Henry James e Jane Austen na sala da sua casa: as moças chegavam com túnicas e véus que deixavam de fora só o rosto, e aí, já lá dentro, despiam o traje "oficial" e por baixo estavam vestidas como pessoas “normais”, influenciadas pela moda do ocidente, muitas de jeans e roupas até bem coloridas. A vida cultural praticamente tinha desaparecido da cidade, mas filmes e livros contrabandeados continuavam a circular na clandestinidade. Basicamente essa é a história do livro, onde a autora relata estas experiências, entremeadas pelos acontecimentos políticos que transformaram o dia-a-dia dos iranianos.

 

O livro é dividido em partes, em que os autores Nabokov, Fitzgerald, Henry James e Jane Austen são observados mais de perto. A cada parte a situação política e social do Irã é confrontada com situações das obras desses autores. Dessa maneira ela vai desenrolando a história da literatura universal para seu grupo de alunos. Mas eu achei que o livro foi ficando monótono e repetitivo. Os conflitos abordados nas partes acabam sendo os mesmos, numa apresentação cansativa onde havia uma tentativa de analisar a personalidade e/ou atitudes dos personagens exigindo de nós leitores, uma constante busca em nossa memória desses livros lidos (ou não) há décadas (como no meu caso), enfim... didática demais para o meu gosto: ela foi mais professora do que autora a meu ver. O livro é comprido, difuso e muito pouco objetivo.

 

O fato é que para mim foi bastante cansativo, demorei uma eternidade para ler (preciso acabar com essa mania de TER que terminar tudo que começo a ler, pois isso me faz perder um tempo precioso com livros que não estou gostando, como aconteceu com esse...). Entendo que a autora precisou proteger as personagens (a censura é perversa no Irã e parece que muitos desses personagens continuam a viver lá), mas algumas informações fizeram falta para o bom andamento da história, e como ela também optou por uma narrativa não cronológica, o efeito final ficou bastante confuso a meu ver, e acredito que tudo isso até colaborou para tornar a leitura bem complicada.

 

Em resumo: aprendi algumas coisas sobre a história daquele país (podia ser mais), deu para conhecer um pouco melhor a realidade cultural, social e política da República Islâmica do Irã (também podia ser mais), mas a narrativa foi muitas vezes... como direi? Aborrecida? Monótona? Confusa? Não sei...  O que sei é que esse é daqueles livros que tenho certeza absoluta que não lerei de novo. Não gostei. Esperava muito mais dessa leitura pela sinopse e por todos os elogios que li sobre ele e agora tenho certeza absoluta que é um livro que poderia ter ficado lá na “minha pilha de espera” por muitos e muitos mais anos ainda...

 

 

 

 


 

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Maria Cláudia de Macedo Miranda Marandino

 

Resendense de nascimento e carioca desde os meus três anos, sou professora (aposentada) especializada em alfabetização e pré-escolar. Amo ler pelo simples prazer de ler! Não sou especialista em literatura mas vou colaborar no 1 olhar com o resumo que faço de cada um dos muitos livros que leio na esperança de despertar o leitor que sei que vive dentro de cada um de nós: todos somos leitores, basta que o livro certo nos encontre!

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