E O PALHAÇO BRASILEIRO? O QUE É?

05.09.2017

 

E O PALHAÇO BRASILEIRO? O QUE É?

PARTE 3: OS PALHAÇOS CANTORES

 

 

Nos últimos textos  falamos sobre os palhaços no Brasil Colônia e Império. Eram artistas que desembarcavam em nossas praias e se aventuravam pelo território, viajando em carroças e se apresentando em barracas de lona e circos de pau-a- pique. As primeiras comprovações de brasileiros natos atuando como palhaços datam do século XVII, a partir de notícias de jornais e anúncios publicitários feitos pelas companhias circenses. Pouco a pouco, a partir da mescla entre a palhaçaria européia e nossas músicas e festejos populares, foi surgindo um estilo nacional, festivo e miscigenado como nosso povo.

 

Grande foi a influência da cultura negra em nossa comicidade, dando ao artista brasileiro um jeito todo especial: os palhaços cantavam, tocavam violão e dançavam. Eles se apresentavam sozinhos, em duplas ou acompanhados pela banda do circo e o repertório era formado por modinhas, frevos, chulas, maxixes e lundus. Alguns se tornaram famosos e no começo do século XX começaram agravar canções populares. Os palhaços cantores protagonizaram nossas primeiras gravações musicais e deram impulso à nascente indústria fonográfica brasileira.

 

No ano de 1900 foi inaugurada, no Rio de Janeiro, a Casa Edison, uma loja que importava e vendia phonographos, gramophones, cilindros e os tradicionais discos de vinil, que na época chamados de "chapas". No início era apenas música estrangeira, mas rapidamente seu dono, o imigrante tcheco Fred Figner, transformou a Casa Edison na primeira gravadora da América Latina. Nesta época, a capacidade de gravação dos cilindros e discos era muito pequena, menos de cinco minutos. A maior parte das musicas clássicas durava mais do que isso, de forma que era impossível gravá-las nessas mídias. Já as canções populares, bem mais curtas, eram perfeitas para preencher esse espaço, compondo assim os primeiros catálogos, gravados em cilindros e chapas de 78 rotações. Além de músicas, a gravação de piadas e monólogos de comediantes também fazia parte do repertório.

 

Cilindro e phonographo. Disponível em: http://historiaschistoria.blogspot.com.br/2015/01 .

 

Entre os palhaços que gravaram discos estavam os brasileiros Antônio Correia, Eduardo das Neves, Bahiano, Benjamim de Oliveira, Mauro Pinheiro e o português Polydoro 1 . O palhaço e músico Manoel Pedro dos Santos, mais conhecido como Bahiano, foi o primeiro cantor brasileiro a aparecer nas gravações feitas pela Casa Edison. No catálogo comercial lançado pela gravadora em 1902 já constavam 73 gravações feitas por ele, que, além disso, foi quem interpretou o nosso primeiro samba gravado, o "Pelo telefone" 2 , composição de
Ernesto dos Santos, mais conhecido como Donga, e do jornalista Mauro de Almeida.
3
 

Esses palhaços viajavam com os circos e foram os grandes divulgadores dos ritmos e músicas populares ao redor do país. Tiveram importante participação na cena musical brasileira, sendo parceiros de compositores como Donga, Nozinho, Catulo da Paixão Cearense, Quincas Laranjeiras, entre outros. E também cantavam as chulas, música típica dos palhaços, canções de melodia simples, com perguntas e respostas, cantadas nos desfiles e cortejos circenses.

 

Quem não conhece os populares versos: “Ô raia o sol, suspende a lua, olha o palhaço no meio da rua”? Esta chula tem mais de duzentos anos e é cantada por todo o território brasileiro. Do Oiapoque ao Chuí, basta perguntar:

- E o palhaço o que é?

Que o povo responde:

-É LADRÃO DE MULHER!

 

1 Uma pesquisa aprofundada sobre o assunto pode ser encontrada em: SILVA, Erminia. Circo-teatro:
Benjamim de Oliveira e a teatralidade circense no Brasil. São Paulo: Altana, 2007.
2 Ouça a gravação original em: https://www.youtube.com/watch?v=aKKyrF2iYcA
3 Maiores informações no Dicionário Cravo Albim da música popular brasileira, disponível em: http://dicionariompb.com.br.

 

Catálogo de chapas da Casa Edison. Disponível em: http://vinylhistory.blogspot.com.br

 

 

 

 

  

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Lili Castro

 

Palhaça, comunicadora e atriz. Participa de festivais e eventos nacionais e internacionais. Dá cursos de palhaçaria e circula com o espetáculo solo “O maior prêmio do mundo”. Atualmente cursa o mestrado em Artes Cênicas na UNIRIO, onde desenvolve uma pesquisa sobre a dramaturgia do palhaço.

 

 

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