Custo de Capital

18.09.2017

Continuo hoje minha série sobre as dificuldades de empreender no Brasil. No primeiro artigo fiz um apanhado das principais dificuldades. Nos segundo e terceiro falei sobre a burocracia. E hoje o tema será o Custo de Capital, nossas altas taxas de juros e a dificuldade na obtenção de crédito.

 

Nosso país tem uma das taxas de juros mais altas do mundo. Seja para obter financiamentos para abrir o negócio, investir numa expansão ou garantir o capital de giro, a certeza de taxa de juros elevada inibe novos investimentos. E mesmo que o empreendedor não necessite de financiamento, ele será também impactado, pois este custo está embutido nos preços que ele paga, mesmo não os vendo. Não podemos esquecer do custo de oportunidade de investir em um negócio, se o empreendedor pode deixar seu capital em investimentos de menores riscos como o Tesouro Direto ou mesmo fundos de investimento, por que ele iria investir em um negócio arriscado? Podemos abordar aqui também a dificuldade na obtenção de crédito. Neste tópico o Brasil ocupa a 101ª posição no ranking Doing Business.

 

E por que as taxas de juros no Brasil são tão elevadas?

 

Não há uma única resposta para essa pergunta. Assim como antes do Plano Real era difícil explicar as causas da elevada Inflação no Brasil e achar uma solução parecia impossível, agora temos um caso similar com as taxas de juros. A maior diferença entre os dois é a percepção deles pela população. A inflação elevada é percebida por todos no dia-a-dia, enquanto que a elevada taxa de juros tem um efeito muito mais estrutural que no cotidiano das pessoas. Mas esse problema é uma das âncoras para o nosso desenvolvimento e precisamos urgentemente atacá-lo. Para isso precisamos entender essas causas e resolvê-las uma a uma. São muitas, mas são identificáveis e tratáveis.

 

SELIC

 

É a taxa básica de juros. Grande parte das taxas de juros na economia brasileira são definidas baseadas nela. Ela é lastreada em títulos públicos federais. A taxa Selic reflete o custo do dinheiro para empréstimos bancários, com base na remuneração dos títulos públicos. A taxa básica brasileira é uma das mais elevadas do mundo, impactando em cascata as demais taxas de juros no país.

 

E por que a taxa Selic é tão elevada? Se você é um investidor estrangeiro e pode colocar dinheiro, à mesma taxa de juros, no Brasil ou nos Estados Unidos, qual você escolheria? Imagino que a resposta seja Estados Unidos. Pois a probabilidade de você recuperar seu investimento é maior nos Estados Unidos que no Brasil. Logo, o Brasil precisa remunerar seus credores a uma taxa mais elevada, para conseguir atrair mais capitais. Isso vale tanto para empréstimos para o governo, através de Títulos do Tesouro, quanto para investimentos privados. O equilíbrio fiscal é fundamental nessa conta. Quanto maior o desajuste fiscal, maior o risco de o governo dar calote naqueles que compraram Título do Tesouro. Por isso as reformas estruturais são fundamentais.

A famigerada PEC do Teto dos Gastos Públicos, a Reforma da Previdência, a Reforma Trabalhista, entre outras ações são fundamentais para a redução do risco de calote público e privado, promovendo uma redução gradativa das taxas de juros.

 

Inadimplência

 

A elevada inadimplência no Brasil também é um dos fatores. E quando estamos em crise, esse problema se torna ainda mais grave. Desemprego e falência são duas das principais razões, além, é claro, da elevada taxa de juros, ou seja, entramos em loop. Mas podemos atacar pontos estruturais para diminuir o impacto provocado pela inadimplência. A primeira ação seria a criação do cadastro positivo, destacando os bons pagadores e facilitando a execução de garantias.

 

Nos Estados Unidos cada cidadão tem um “Credit Score” que vai aumentando conforme você paga suas contas em dia. Quanto melhor essa pontuação, melhor seu acesso ao crédito e menores são suas taxas de juros.

 

Depósitos compulsórios

 

Os bancos são obrigados a manter uma parte dos recursos captados dos clientes em uma conta do Banco Central. Com isso os bancos têm menos dinheiro disponível, e são mais seletivos em seus empréstimos, escolhendo aqueles com maior rentabilidade. Os depósitos compulsórios no Brasil, além de serem muito elevados em relação aos demais países, têm regras muito complexas, que também contribuem para o aumento do custo do capital.

 

TJLP x TLP

 

O crédito subsidiado elevado é outro fator importante. Tanto o governo quanto os bancos necessitam aumentar as demais taxas de juros para compensar a perda com os subsídios. Sem falar que esses subsídios muitas vezes não são direcionados para quem de fato precisa, impactando áreas da economia que necessitam de crédito e subsidiam o crédito que vai para grandes empresas, através do BNDES.

 

Mas uma ótima notícia é que o governo aprovou recentemente uma importante mudança, que surtirá efeito a partir de janeiro de 2018, mas que será 100% efetiva em 5 anos. A substituição da TJLP (Taxa de Juros de Longo Prazo) pela TLP (Taxa de Longo Prazo) na taxa de empréstimo do BNDES. A eliminação de uma letrinha tem um efeito enorme na economia. Gradualmente, por 5 anos, a taxa de juros será ajustada para que ela corresponda à taxa de juros real.

 

Mas você pode pensar que esse subsídio era importante para alavancar alguns setores. Não, o efeito era o oposto. Lembrando que o BNDES empresta principalmente para grandes empresas do Sul e Sudeste, logo, para compensar esse subsídio, as demais taxas de juros são acima do que poderiam ser. Fazendo com que os mais necessitados paguem por isso.

 

Além disso, essa medida ampliará o estoque de crédito da economia sensível à política monetária, amplificando sua potência. Isso permitirá que as taxas de juros da economia brasileira se reduzam de maneira estrutural, com impactos positivos sobre os investimentos, a atividade econômica e o emprego. Isso quer dizer que a economia será mais sensível a mudanças na taxa SELIC.

 

Taxa de Poupança Interna

 

A baixa taxa de poupança afeta a disponibilidade de dinheiro para investimentos. Muitos podem pensar que a baixa taxa de poupança interna é algo cultural e não há como mudar. Mas não, nossa taxa de poupança pode ser explicada por pelo menos três fatores. Políticas públicas nas últimas décadas para estimular o consumo, reduzindo a poupança. Isso puxado por um crescimento econômico muito baseado no consumo interno. O Brasil é um dos países mais fechados do mundo, ocupamos a 149ª posição do ranking Doing Business nesse quesito (mas isso é tema para um outro artigo).

 

O segundo fator é não haver incentivos para poupar no Brasil. Políticas assistencialistas promovem a percepção para a maior parte da população que a renda futura está garantida, não incentivando a poupança.

 

“Sendo assim nossa baixa taxa de poupança, pelo menos a familiar, é explicada pela elevada cobertura de nossos programas sociais. A China é o caso oposto que tem elevada taxa de poupança e baixíssima cobertura de serviços sociais básicos. A população chinesa carece de saúde, educação básica, aposentadoria, seguro-desemprego etc e, portanto, reserva uma parcela maior de sua renda para imprevistos desse tipo.” (Victor Wong, Terraço Econômico)

 

O terceiro fator é o quanto o governo deixa disponível nas mãos da população, ou seja, o quanto o governo não tira através da carga tributária. E aí vemos novamente a importância do ajuste fiscal, reduzir os gastos públicos tem duplo impacto. Menor a necessidade de arrecadação, deixando o dinheiro na mão da população para que ela gaste e, principalmente, poupe. E maior poupança também do governo.

 

Mas enquanto não conseguimos aumentar a taxa de poupança interna, podemos também aumentar a poupança total no Brasil abrindo mais o mercado e recorrendo à poupança externa.

 

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Este texto talvez seja o que aborde o tema mais complexo dessa série de artigos. Mas quando acabo de escrevê-lo talvez seja o que me deixe com mais esperanças. Pois as ações são duras, complexas e de longo prazo, mas são factíveis têm um impacto gigantesco na nossa economia.

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Fontes:

 

 

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Paulo Ganime

Participante do Processo Seletivo do Novo com o objetivo de ser candidato a Deputado Federal pelo Rio de Janeiro em 2018. Paulo é Carioca, 34 anos, apaixonado pela cidade do Rio de Janeiro e pelo Brasil. Ele tem 14 anos de experiência nas áreas financeira e de gestão de projetos em empresas multinacionais. Morou 5 anos na França e EUA, gerenciando equipes na Europa, Ásia e Américas. Paulo é formado em Engenharia de Produção pelo CEFET-RJ, estudou Economia na UERJ e fez um MBA na PUC-RIO, além de ter certificação PMP (em Gestão de Projetos).

 

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