O beija-flor e a janela

29.09.2017

Sábado de manhã. Minha esposa dormiu até mais tarde (como ela faz sempre que pode) e eu, por algum motivo que não lembro, havia saído. Pouco antes da hora do almoço eu já estava voltando para casa quando ela me ligou dizendo que não ainda tinha saído do quarto porque tinha algum bicho fazendo muito barulho. Um pássaro preso, pensei. Enfim, mais uma daquelas missões de marido. Cheguei em casa e entrei cautelosamente. Fui até o quarto como que para dizer: “Estou aqui, senhorita. Não se preocupe, tudo vai dar certo."

 

E depois procedi às buscas. Sempre com muita cautela (prudência não é sinônimo de cagaço). Chequei primeiro o banheiro, e, logo após o quarto das crianças (que ainda não existem mas já têm um quarto). Finalmente, fui para a sala e achei o barulhento. Era um beija-flor. Ele não estava preso, estava sendo enganado, um autoengano, pode-se dizer. Sucedeu o seguinte. A janela da cozinha estava aberta, a única em toda a casa, e foi por onde o bendito entrou. A da sala estava fechada, mas o maldito queria sair por ali. Só que entre ele e o mundo havia uma barreira intransponível – o vidro. E ele tentava, insistentemente, romper aquela barreira, de todas as formas, ou melhor, de uma única forma, da mesma forma: voava e bicava a janela depois pousava na base de alumínio. De novo, e de novo, e de novo, da mesma maneira que um inseto insiste em entrar na lâmpada.

 

Aí eu entrei em ação. Fácil, pensei. Vou abrir a janela, ele vai ver a abertura e vai voar rumo à liberdade. Para que se entenda de forma mais clara, melhor descrever a janela. É uma daquelas janelas de duas partes e que correm sobre trilhos e onde o vidro fica preso na moldura de alumínio, como se fosse um quadro, de forma que, para abri-la, basta deslizar uma das partes para o lado. Quando se faz isso, as partes ficam sobrepostas.

 

Pois bem, continuando com a narrativa, cheguei perto com cuidado para não assustar o bicho, joguei a cortina bem pro canto (nessa hora ele voou igual um desesperado e bicou a janela várias vezes e eu dei um pulo para trás por precaução, não por medo), e comecei a abrir lentamente a parte em que ele estava pousado. Nada. Abri mais um pouco. Nada. Abri mais ainda. Nada. Como já estava aberta bem mais que o suficiente, resolvi fazê-lo voar. Sem maldade, apenas para que pudesse seguir o seu caminho. Fiz um gesto brusco com os braços e o beija-flor voou... voou para cima e repetiu o que fizera até então, tentando romper o vidro... não conseguiu ver que, a apenas alguns centímetros, além do alumínio, estava a abertura...

 

Nesse instante, vi que o animal, por si só, não sairia dali. Tive que mudar a estratégia. Passei para o outro lado da janela e, ao invés de abrir mais a banda onde a ave se encontrava, resolvi abrir a outra. Ou seja, a outra parte da janela iria correr para cima dele. Duas coisas poderiam acontecer. Ou ele saía dali, ou ia ficar preso entre as partes da janela. Resolvi arriscar. Lentamente, mas com pequenos solavancos, fui abrindo a outra parte. A cada solavanco, o pássaro repetia a sua atitude. No entanto, seu espaço na janela estava diminuindo. Uma borda de alumínio se aproximava dele, ameaçando esmagá-lo. E assim continuei. Fechando, fechando, fechando. Quando o espaço que ele tinha se reduziu para quase um palmo de vidro e cercado por alumínio, por algum motivo, a atitude dele foi diferente. E, como eu previra, incrivelmente simples. Voou para trás, ao invés de para frente. E, nesse momento, ele viu a abertura. E voou. Agora sim, livre.

 

O engraçado da história é que aumentar a abertura da janela não fez com que o beija-flor visse a saída, foi a borda de alumínio ameaçando espremê-lo. A janela estava ali. Aberta. Mas ele insistia em tentar romper o vidro. Não foi capaz de olhar para o lado senão quando não restou outra alternativa além de fazer algo diferente. Mudar de atitude.

 

Não pude deixar de tirar conclusões desse episódio simples. Nós somos exatamente como o beija-flor. Então, aí vai uma dica que tomei para mim mesmo:

 

Não espere ficar sem alternativas para mudar de atitude. Pare, pense. Olhe ao seu redor. Com certeza haverá alguma janela aberta.

 

 

 

 

Augusto Gomes Couto

     

Pai e marido em tempo integral, escritor nas horas vagas, Perito Criminal Militar nas horas escravas.

 

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