Resenha do livro RIO DAS FLORES – MIGUEL SOUSA TAVARES

30.09.2017

 

 

Esse livro estava nos meus planos já tem muito tempo, anos mesmo: ele saiu aqui no Brasil em torno de 2008, uma época bastante conturbada da minha vida quando li muito pouco. Depois sempre acontecia alguma coisa e ele ia ficando para lá... Até que recentemente uma amiga me ofereceu o dela e finalmente resolvi ler, principalmente porque é mais um livro com fundo histórico como eu gosto.

 

Achei o enredo bastante interessante: trinta anos de história passados na primeira parte do século XX são retratados neste romance, mostrando um Portugal escondido no interior do Alentejo (uma parte durante a ditadura de Salazar), passando pelo Brasil da ditadura de Vargas bem como pela segunda guerra mundial, com personagens que me cativaram e prenderam. Mas achei que o livro foi um tantinho didático demais e algumas passagens, principalmente as referentes a momentos políticos, são excessivas, o que nos leva, por vezes, a perder o fio da trama: de vez em quando, na intenção de explicar a fala de um personagem, Miguel Sousa Tavares se perdia em digressões e me fazia pensar nos meus tempos de estudante diante de um livro de história, me preparando para uma prova! Entendo que vez ou outra uma explicação se faz necessária e até nos ajuda muito a entender o enredo. Mas isso poderia acontecer no pé da página, não dentro do enredo propriamente dito por que, a meu ver, o autor usou desse recurso tantas vezes  que acabou mais atrapalhando do que ajudando. Posto isso, vamos ao livro...

 

Essa é a história de três gerações da família Ribera Flores, que começa em 1915 com a primeira República portuguesa e os embates com os monarquistas, percorrendo os principais acontecimentos políticos, sociais e culturais que marcaram Portugal, Espanha, Alemanha e o Brasil até o final da Segunda Guerra Mundial, em 1945.

 

Primeiro vamos acompanhar as vidas do monarquista e grande proprietário de terras o alentejano Manuel Custódio, e de Maria da Glória, esposa, mãe e guardiã da casa: uma história curta e precisa de um casal típico de seu tempo e de sua posição social. Depois vamos saber das histórias de seus dois filhos, Diogo e Pedro, que protagonizam polos opostos no seio familiar, mas que são os reflexo dos acontecimentos externos de uma época bastante confusa da humanidade.

 

Pedro, decidido, autoritário no exercício profissional, defensor da ditadura e das elites, toma conta da propriedade da família após a morte do pai. Cinco anos mais novo que o irmão, não anseia por mais nada que não seja a terra onde nasceu, onde se sente dono e senhor. É um homem introspectivo e dado a grandes silêncios, racional, um tanto frio e calculista, luta pelos seus ideais, e é por eles (ou será para fugir da dor de um amor mal resolvido com Angelina, estudante de arte, para quem o Alentejo e Portugal são pequenos demais para a sua criatividade?) que se alista na Guerra Civil Espanhola, para lutar contra os republicanos. Destemido, luta pela Espanha como se fosse seu próprio país, até ter que voltar ferido e com uma pequena deficiência física para Portugal, mais fechado e silencioso do que antes...

 

Diogo, mais velho, emotivo, sonhador, é um homem apaixonado pela liberdade, um democrata que ama a sua terra que ao mesmo tempo o sufoca, que desafia a ordem e os costumes instituídos ao casar com Amparo, uma belíssima cigana filha de um ex-rendeiro das suas terras. Tem como ideal de vida a liberdade, e por isso se sente reprimido no seu país onde a ditadura ganha a cada dia mais adeptos. Sempre sonhou com o Brasil, país que virá a conhecer por motivos profissionais, e para onde mais tarde voltará deixando a família para trás: essa é a terra onde ele enlouquece por suas belezas, onde até a falta de liberdade de outra ditadura não consegue trazer uma cura para tanta paixão a não ser a de querer permanecer aqui para sempre, para fazer dessa a sua terra!

 

Manuel Custódio e Maria da Glória... Pedro e Angelina... Diogo e Amparo... os personagens apaixonantes que fazem desse um romance interessante e até bem gostoso de ler, não fossem as explicações didáticas da história: vale aqui ressaltar que gosto de romances históricos, mas apenas quando funcionam como pano de fundo, sem muitas interferências tipo pedagógicas que acabam interferindo no ritmo da leitura...

 

 


 

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Maria Cláudia de Macedo Miranda Marandino

 

Resendense de nascimento e carioca desde os meus três anos, sou professora (aposentada) especializada em alfabetização e pré-escolar. Amo ler pelo simples prazer de ler! Não sou especialista em literatura mas vou colaborar no 1 olhar com o resumo que faço de cada um dos muitos livros que leio na esperança de despertar o leitor que sei que vive dentro de cada um de nós: todos somos leitores, basta que o livro certo nos encontre!

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