LEI UNIVERSAL

09.10.2017

Alguns chamam de a “gota d’água”. Outros de fim da picada. Há quem o demonstre com uma expressão ameaçadora: “Estou por aqui!”, devidamente acompanhada de um gesto indicativo de onde é o “aqui”. Houve quem criasse a própria teoria, como a das “janelas quebradas”, de Rudolph Giuliani, prefeito de New York, para justificar sua política de
tolerância zero. Existem os ditados populares e os provérbios do tipo “de grão em grão a galinha enche o papo” e “devagar se vai ao longe” ou na sua versão mais simples e menos figurada “do pouco se chega ao muito”. Esses são apenas alguns exemplos da manifestação de uma lei universal que afeta a todo ser humano e, por consequência, a toda organização composta por esses mesmos seres. Essa lei universal pode ser encarada sob vários aspectos da vida, tanto bons quanto ruins, mas pode ser dividida em três elementos básicos comuns a qualquer situação, e que, se presentes, explicam o que ela é. Esses três elementos são: coisas pequenas não resolvidas, somatório e limite.


Sob o ângulo dos problemas que nos afetam, problemas de todo o gênero, familiar, afetivo, profissional, psicológico, enfim, criei, eu mesmo, a partir da observação desta lei e dos seus elementos básicos, um nome para ela. Batizei-a de “Teoria do Fio de Cabelo”. Sim. Fio de cabelo. Você já viu o tamanho de um fio de cabelo? Pois é. É pequeno. Mas é o somatório de fios de cabelo que, por exemplo, fazem o box do seu banheiro começar a encher por que a água não tem por onde descer. Por quê? Fios de cabelo entupindo o encanamento. Não um fio apenas. Nem dois, nem três, nem dez, nem cem. Muitos. E não foi de uma hora para outra. Levou tempo. Bastante tempo. Até que se chega a um ponto em que não dá mais. E do que estamos falando agora? Exato. Limite.

 

Tudo tem o seu limite. Se até o encanamento tem o seu, por que seríamos diferentes? Qual a relevância disto? Explico. Quando digo que é uma lei universal quero dizer realmente isso. Universal. Aplicável a qualquer situação, em qualquer lugar, para qualquer tipo de coisa. Imagine o seguinte exemplo, típico em livros e palestras sobre relacionamentos afetivos, mas raramente explorado sob o ângulo da lei que ora trago à análise: um casal, após dez anos de relacionamento, está à beira do divórcio. Ela não suporta mais as manias
do marido. Ele diz que qualquer coisa vira motivo de briga, que até a tampa da privada levantada irrita a esposa. Quer outro exemplo? Lá vai, desta vez um intra-pessoal: o sujeito trabalha há mais de vinte anos no mesmo emprego. O salário é razoável, ele consegue sustentar a família. Um belo dia, ele chega no seu trabalho vai direto falar com o chefe. Ele não pede demissão. Simplesmente avisa. A partir daquele dia, nunca mais coloca os pés naquele lugar. Em ambos os casos, temos a mesma aplicação da Teoria do Fio de Cabelo. Pequenas coisas ignoradas. Pode ser uma resposta mal dada sem um pedido de desculpas, uma promoção postergada, um elogio atropelado, enfim, coisas realmente pequenas, mas desdenhadas. O grande ponto é que essas coisas se repetem, de novo e de
novo e de novo. Na verdade, nosso dia a dia é feito por elas.

 

O que podemos fazer, então? O que devemos fazer? Talvez seja melhor começar com: onde isso mais me afeta? Pense por um instante. Qual a área da sua vida em que há pequenas coisas que você “suporta”? Ou seja, pequenos aborrecimentos que, sabe-se lá por qual motivo, você releva, mesmo sabendo que eles, fatalmente, se repetirão. Vamos facilitar as coisas. Nós somos seres humanos. Uma única espécie. E nosso modo de vida é praticamente o mesmo. Não temos muitas diferenças além de nossas ideias. Basicamente, nós circulamos por três áreas básicas em nosso dia a dia: afetiva, profissional e espiritual.
 

A área afetiva está ligada a todas as nossas relações sociais baseadas no afeto. Pode ser com os pais, com o cônjuge, namorado (a) e afins, filhos, familiares de uma forma geral e amigos. Pode incluir, ainda, o relacionamento com nossos bichinhos de estimação. Claro! Por que não? A área profissional envolve nossa relação com os colegas de trabalho, superiores e subordinados, além do trabalho em si. Já a área espiritual envolve, também, as pessoas da religião que escolhemos. Líderes, liderados, enfim. Além, é claro, das entidades espirituais, das doutrinas e de todo o resto. Relacionamento, portanto, é a palavra que nos define. Somos seres sociáveis e relacionais. Não somos nada por nós mesmos, mas sim o que fazemos e refletimos nos outros.

 

Pois bem, voltemos ao assunto. Em todo relacionamento há momentos de atrito. TODOS. Não se engane nem deprima por isso. Somos seres emocionais e com ideias diferentes e, por vezes, opostas. Em algum momento, emoções e/ou ideias opostas se chocam. Isso é absolutamente natural. A diferença para sair desse momento de forma saudável ou não está no quanto nós valorizamos aquele relacionamento. Se dermos mais atenção aos nossos sentimentos e opiniões, significa que valorizamos mais nossas ideias que a relação.

 

Mas isso está se estendendo além do necessário e para um caminho inútil. O que quero dizer, de verdade é que há coisas que nos aborrecem nos relacionamentos, seja ele qual for. Há coisas que nos fazem querer jogar tudo para o alto e não ver aquela pessoa nunca mais. A questão é: como lidar com isso? Relevando? Pronto, consegui voltar. Cuidado. Não esqueça da teoria do fio de cabelo. Resolva a questão! Não releve! Mesmo que isso signifique você assumir um pensamento do tipo: “essa pessoa não vai mudar, vou aceitá-la desse jeito mesmo". Já é alguma coisa. O que não dá é para respirar fundo e seguir em frente, como se nada estivesse acontecendo. Acredite. Aconteceu e está ali. No seu encanamento. Uma hora ele vai entupir e provavelmente já será tarde demais.

 

 

 

 

Augusto Gomes Couto

     

Pai e marido em tempo integral, escritor nas horas vagas, Perito Criminal Militar nas horas escravas.

 

 

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