Brasil: Estado bandido

25.10.2017

Confesso que, no alto dos meus 56 anos, nunca vivi uma época em que a bandidagem do estado brasileiro fosse tão explícita.


Praticamente nasci sob o signo da Ditadura (1964-1985), onde, especialmente a partir de 1968, os podres eram sufocados no seu nascedouro não alcançando a mídia. Fora a repressão e a censura, vivíamos sob o quase reconfortante manto do silêncio.


Depois veio o governo José Sarney em 1985, filhote da Ditadura. A inflação grassava, herança da irresponsabilidade estranhamente Keynesiana dos últimos anos da Ditadura. Todos sabiam que rolava de tudo, mas não havia nada, nem de longe, tão explícito como nos dias de hoje. Havia pelo menos uma compostura mínima.


Em seguida veio o Fernando Collor de Mello em 1991 e seu plano louco, megalomaníaco e corrupto (o inside information enriqueceu muitos amigos) para acabar com a inflação. Logo vieram pencas de denúncias, que estimulou o movimento Fora Collor nas ruas para derrubá-lo em 1992, em meio a uma chuva de manchetes e capas de revistas. E ele terminou alijado do cargo por conta de uma mera Fiat Elba, apesar de haver muito mais por trás, ocultos na bruma da impunidade.


O folclórico vice Itamar Franco fez o mandato tampão a partir de 1992, catapultando Fernando Henrique Cardoso através do Plano Real.  No tempo do FHC (1995-2002) havia denúncias aqui e ali, talvez em parte blindadas pelo PGR Geraldo Brindeiro, mas nada respingando diretamente no FHC.

 

E então entramos na dinastia PT (2003-2015). Durante os dois mandatos do Luiz Inácio da Silva Lula (2003-2010) o Brasil viveu um momento de bonança, catapultado pelo crescimento mundial e as denúncias, excetuando o mensalão de 2005, eram esparsas e não atingiam o Lula.


Diante da queda do Antonio Palocci, o todo poderoso ministro da Fazenda e de Dirceu, quase um primeiro ministro informal; diante das denúncias, só restou a Lula indicar o poste Dilma Rousseff.


Com Dilma (2011-2016), começou o descenso da Economia turbinado pelo fim do tripé econômico sob os escombros na Nova Matriz Econômica, era de gastança desenfreada e irresponsável, do atual réu Guido Mantega. No entanto, até quase o final do seu primeiro mandato nada muito sério respingou contra a Dilma.

No apagar das luzes das eleições que a reelegeu em 2014, começou a tempestade da Lava Jato, trazendo quase todos os partidos e suas lideranças para o centro de sucessivas investigações.

Curiosamente esse movimento foi conduzido por duas lideranças (Leandro Daiello da PF e Rodrigo Janot do MPF) nomeadas pelos próprios futuros réus, que jamais poderiam imaginar que o fogo um dia ia se voltar contra eles mesmos.  Simpatia pretérita por ideias de esquerda não implica em anuência direta de atos de corrupção.

 

Essa é a lição amarga que eles aprenderam e que jamais repetiriam na possibilidade tenebrosa de um novo mandato de Lula. Só haveria Toffolis, Lewandowskis  e Gilmares.

Quando Dilma tentou reagir com 2 ministros, ilegais procuradores, já era tarde demais e ela estava no ocaso de seu mandato.

Em meio a tudo isso, a Dilma foi defenestrada em 2016 através de votos de um Congresso podre, que a afastaram não pelos motivos reais, que são totalmente embasados na lei, mas por seus interesses escusos.  

No seu lugar, entra o inexpressivo, mas ladino Michel Temer; vice por 2 vezes do governo petista. No início, ele fingia adotar uma postura republicana, de jurista, escritor que é de um clássico livro de direito constitucionalista.

Lula, já ex-presidente, se viu atirado em uma chuva de processos que já alcançam a marca de 7, em 2 varas, com mais 3 à caminho, mas Temer, mesmo com denúncias esparsas mas inespecíficas, continuava relativamente à salvo.

Depois da tempestade Joesley Batista da JBS, a tênue capa de respeitabilidade estourou para sempre. Tenebrosas gravações, documentos, ações controladas, etc. vieram à tona, revelando um oceano interminável de fezes.


Nada sobrou. Aécio Neves, Temer e diversos outros foram pegos em flagrantes notórios. O  mesmo não aconteceu com próceres do PT, porque estes já estavam fora do governo, quando todo o esquema da ação controlada da JBS foi conduzido, com apoio do MPF.


A coisa chegou a um ponto que uma gravação de Aécio, ex-adversário da Dilma de 2014, o flagrou aventando a hipótese de ele mandar matar o emissário de uma remessa de dinheiro, se este emissário se dispusesse a delatar. Mesmo diante de um mar de evidências, o Congresso o reconduziu ao cargo, também temendo o efeito Orloff (Eu sou você amanhã)

Em suma, temos hoje um presidente notoriamente corrupto, um Congresso manchado, onde manchetes de troca de votos contra o arquivamento da denúncia por cargos e/ou dinheiro são recorrentes; e, para finalizar, o STF, a instância máxima da justiça no Brasil, acovardado diante da truculência do poder, ao permitir que o Congresso decida sobre o destino do Aécio, violando flagrantemente o que está estabelecido na lei.


É uma situação vergonhosa para o Brasil: O Temer viaja e, quando consegue, é recebido por líderes estrangeiros, que constrangidamente o recebe, já tendo sido informado pelos assessores que se trata de um corrupto explícito de alta estirpe.


Qualquer mudança futura depende de novas regras no jogo da política. O problema se dá quando se responde a pergunta: Quem faz essas regras? Eles mesmos! Difícil. Como esperar que porcos votem para que os matadouros os transformem em linguiças?


Esses tais políticos  estarão amanha votando despudoradamente, em sua grande maioria, na manutenção do Temer, um presidente que já perdeu quaisquer chances de continuar governando com qualquer traço de dignidade.


E quando se pensa que a esperança está nos deputados que votarem contra o Temer, é outro ledo engano. A maioria dos votos contrários virá de políticos que votaram a favor da manutenção da Dilma, que representa os bandidos da gangue rival que até outro dia estavam juntos de braços dados.

 

Lembrando, mais uma vez, que a Dilma estava empenhada, por seu lado, para destruir a Lava Jato, tendo até nomeado Lula como ministro só para escapar da prisão, que parecia iminente. Além disso, quase toda essa trupe (que hoje faz parte da situação e oposição)  juntos atiraram o Brasil para o fundo do poço, no qual nos encontramos hoje.


Estamos em um ponto onde mal se pode ter esperança. Dá um gosto amargo de impotência e vontade de enterrar a cabeça na areia e se alienar em alguma esquina qualquer.

★ ★ ★

Tem sido muito popular nas redes sociais infindáveis debates contrapondo dois extremos que querem se censurar mutuamente. Um lado que banir menções pretensamente discriminatórias, machistas ou racistas ;  o outro lado quer banir tudo que na visão deles implique em  pedofilia, homossexualismo e críticas a valores religiosos. 

Só que tudo isso são meras distrações irrelevantes diante da catástrofe anunciada, que está repercutindo na esfera político-econômica e não no campo da moral ou relativo a direitos individuais.

 

 

Paulo Buchsbaum é alguém muito conectado a todas as grandes questões da atualidade, navegando em áreas tão distantes como Economia, Exatas e Psicologia. Ele atua como consultor de negócios e empreendedor, mas tem paixão por escrever, já tendo 3 livros lançados. Seu site é www.negociossa.com.

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