Resenha do livro A DISTÂNCIA ENTRE NÓS - THRITY UMRIGAR

28.10.2017

 

 

Esse livro é daqueles que ficam na cabeça da gente para sempre! Não por ser bonito ou com muitas fantasias, mas exatamente por ser real e nos mostrar como somos todos tão iguais na nossa origem enquanto seres humanos: é um romance contado a partir da distância e da proximidade entre duas mulheres, dois personagens que foram criados para habitar em universos diferentes, mas que se encontram através de suas humanidades e se veem diante do desafio de superar e conviver com o fardo de tradições que separam e distanciam pessoas.

 

Vamos ler sobre a existência e convivência comoventes de uma patroa e uma empregada, ambas com vidas difíceis, independente de suas classes sociais, que nos mostra também o modo pelo qual os laços femininos ultrapassam as divisões que a sociedade e a cultura tentam nos impor. É um livro duro, melancólico e que nos faz pensar na diferença (e na igualdade) de classes, que nos faz ver também como o destino pode muitas vezes ser cruel.

 

Como a narrativa se passa na Índia atual acaba sendo uma boa fonte de conhecimento do funcionamento daquela sociedade tão distante, e ao mesmo tempo tão próxima, tão diferente e, no entanto tão igual...

 

É uma história de duas solidões, a de Bhima, analfabeta, hindu de casta mais inferior, e sua empregadora, Sera, uma pessoa educada, viúva aristocrática parsi (os pársis pertencem a um grupo étnico-religioso, discípulos de Zoroastro, que sempre foram empreendedores e cultos, quase todos bem sucedidos, com riqueza e influência comercial). Elas compartilham anos de intimidade.

 

Bhima é uma mulher de meia idade muito pobre, que se encontra num momento emocionalmente frágil ao descobrir que sua neta, Maya, está grávida. Na Índia, um país onde ainda predomina uma cultura patriarcal, a gravidez indesejada e não planejada de uma jovem pobre e solteira representa uma desgraça. Instruída e inteligente, Maya é o oposto de sua avó, é uma jovem doce e cheia de sonhos. Mas, com a descoberta da gravidez, desiste de frequentar a faculdade, fica reclusa e indecisa quanto a aceitar o dinheiro para o aborto oferecido pela patroa de sua avó, e o seu comportamento começa a mudar com o tempo: cria repulsa pela família de Sera, questiona a reverência com a qual sua avó a trata e começa a se comparar com a filha da patroa, que também espera um filho, mas que se encontra num casamento feliz.

 

Rica e elegante, Sera tem uma relação com Bhima bastante contraditória: apesar de permitir certas “liberdades” não condizentes com a postura exigida pelos patrões pársis, como bancar os estudos da neta de sua empregada doméstica, ela tem também atitudes que incomodam até à sua própria filha, Dinaz, como a de se recusar a aceitar que Bhima se sente em cadeiras de sua casa, indicando que até mesmo as refeições da mulher sejam no chão... é um negócio bastante esquisito, principalmente do nosso ponto de vista ocidental e também levando em conta a intimidade que as duas têm nos diálogos sobre suas vidas, em momentos tão simples que chegam a ser comoventes...

 

Apesar dessa posição privilegiada, Sera enfrenta seus próprios dramas e demônios, principalmente as lembranças de um casamento infeliz, marcado pela presença de uma sogra doentia e um marido bastante violento. A personalidade sombria dessa figura masculina é de provocar revolta e arrepios ao lermos sobre as constantes agressões verbais e físicas às quais submetia sua mulher. E Sera, do alto de seu sári bem desenhado, compara sua rotina com a de Bhima e seu companheiro Gopal, que, apesar de todo sofrimento e pobreza, ainda tinham um casamento feliz. São momentos tão humanos e intimistas, que guardam uma beleza de tal intensidade que nem sei descrever direito...

 

Não posso deixar de falar do lugar onde Bhima mora: uma favela em Mumbai, decadente, cujos detalhes são descritos com tão extrema riqueza de detalhes pela autora a ponto de nos fazer sentir cheiros e conseguir visualizar tudo como se lá estivéssemos. Quando a narrativa nos leva ao triste episódio em que Sera a visita nesse lugar, me senti tomada pelas sensações que atormentaram a personagem: os cenários sujos pelos excrementos nas ruas, o cheiro de podre que dá náuseas, e parece que lá como cá... tudo pode muitas vezes ser o mesmo! E é uma sensação terrível essa constatação da pobreza extrema em qualquer lugar do mundo, em como podemos ser tão iguais até na miserabilidade...

 

A trama é muito bem delineada e ainda traz algumas reviravoltas, mas não vou me estender. Fica a certeza de que mais do que relatar o drama tão intenso e muitas vezes bastante sórdido de duas personagens tão diferentes em suas castas, mas tão iguais na dor de serem mulheres em um país extremamente patriarcal, a autora denuncia as injustiças sociais, o machismo, a violência e nos deixa com alguns pontos para uma profunda reflexão e um sentimento urgente de que é necessário mudar.

É estranho como um livro com um conteúdo tão denso, tão duro e muitas vezes tão triste fica na nossa cabeça (pelo menos na minha ficou, a ponto de o reler tanto tempo depois...)! Deve ser mesmo porque ele consegue nos mostrar o quanto somos todos iguais, independente de onde e como vivemos ou em que acreditamos, que na verdade o que importa, o que realmente é relevante é sabermos que somos todos apenas... seres humanos, com as nossas falhas, buscas, encontros e desencontros!!!

 


 

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Maria Cláudia de Macedo Miranda Marandino

 

Resendense de nascimento e carioca desde os meus três anos, sou professora (aposentada) especializada em alfabetização e pré-escolar. Amo ler pelo simples prazer de ler! Não sou especialista em literatura mas vou colaborar no 1 olhar com o resumo que faço de cada um dos muitos livros que leio na esperança de despertar o leitor que sei que vive dentro de cada um de nós: todos somos leitores, basta que o livro certo nos encontre!

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