A obrigação de ter filhos - Série REHLUM


A proibição do aborto ainda é uma das maneiras de se explorar economicamente um nascimento não desejado. Evidentemente, só se recorre a ele quando a gravidez não pode ser evitada. Ele é, portanto, exatamente da mesma natureza, quer dizer, motivado pelas mesmas intenções que os meios utilizados para evitar a gravidez propriamente dita: a contracepção.

E essa proibição ainda existe com a finalidade de limitar a possibilidade das mulheres de controlar sua reprodução (e, portanto, de serem donas de seu próprio corpo). Assim como um aborto é um último recurso contra um nascimento que não pôde ser evitado por outros meios, a proibição é o último recurso para impor às mulheres nascimentos pelos quais elas não se decidiriam necessariamente se pudessem decidir...

É apenas uma das medidas que retira das mulheres a escolha delas de quererem ou não ser mães. E não se pode estudar esta proibição independentemente de todos os outros fatores que contribuem para limitar esse controle em cima da reprodução.

Os anti-contraceptivos, aqui, não se encaixam como uma contracepção real. Eles teriam de ser vistos exatamente da mesma natureza, como havia dito antes, da mesma natureza que é uma intervenção cirúrgica para interromper uma gravidez.

Na medida em que a maternidade é uma condição para que a mulher obtenha o “diploma” do seu próprio gênero não se pode dizer que ela seja livre. Porque ela não é livre para escolher, somente para aceitar e agradecer. Todos esses atores, dos quais as barreiras à proibição do aborto são apenas as formas mais extremas, contribuem para obrigar as mulheres a terem crianças.

E por que obrigá-las?

Ela engravida, em seguida tem a responsabilidade EXCLUSIVA de criar e educar seus filhos. E nem o homem e nem a sociedade assumem uma parte ou a totalidade do trabalho e do tempo necessário a estas crianças. Daí a mulher fornece esse serviço em troca de nada, a não ser sua manutenção. Se elas fossem livres para ter filhos, é evidente que elas não escolheriam tê-los em tais condições. Exigiriam que a maternidade fosse positivamente recompensada. As mulheres só deveriam aceitar pôr filhos no mundo se isso não as impedissem de serem independentes, e na medida em que não as levasse mais a assumir sozinhas a responsabilidade exclusiva da criação, o fato de suportar 9 meses de gravidez seria então moral e materialmente retribuído, na medida de sua importância social.

Ou seja, uma perturbação total das estruturas econômicas e sociais da nossa sociedade, que repousa, inteiramente, para a reprodução dos seres humanos em cima do trabalho gratuito das mulheres, quer dizer, sobre a sua escravidão.

"A Mulher é o escravo do mundo Sim, ela é...pense nisso A mulher é o escravo do mundo Pense nisso...faça algo sobre isso Nós a fazemos pintar o rosto e dançar Se ela não for uma escrava, dizemos que ela não nos ama Se ela é real, dizemos que ela está tentando ser um homem Enquanto a colocamos pra baixo, fingimos que ela está por cima"

Woman Is The Nigger Of The World -John Lennon

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Susana Savedra

É poeta, arte educadora, atriz, modelo vivo e estudante de letras. Integra duas coletâneas, "Lar" e "Baseado na estrada". Para conhecer melhor seu trabalho acesse sua página no Facebook e seus blogs:

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