Resenha do livro O FILHO DE TODOS – THRITY UMRIGAR

03.02.2018

Que livro é esse, que me fez querer ficar lendo-o para sempre e ao mesmo tempo que chegasse urgentemente ao fim? Respondendo a mim mesma... é só mais um romance de Thrity Umrigar!!!  E ela é aquela excelente contadora de histórias, a fada que apenas com as palavras é capaz de mais uma vez nos colocar dentro de um romance com temas atuais, alguns complicados e outros até bem corriqueiros, mas que de certa forma estão sempre presentes no mundo: o poder dos privilegiados capaz de interferir e mudar vidas, a discriminação, a corrupção e principalmente os laços afetivos... Isso sem perder a ternura ao “questionar os clichês do politicamente correto sobre raça e classe social que confortavelmente nos acostumamos a aceitar” como está escrito na contracapa do livro ao destacar a crítica do jornal Boston Globe...

 

Esta é a história de Anton, um menino negro que aos nove anos, durante uma terrível onda de calor, é deixado por dias trancado sozinho em um apartamento por sua mãe, uma viciada em crack. Com fome e desesperado ele consegue quebrar uma das janelas, fugir e é levado pelas autoridades locais. Sua mãe é encontrada depois desacordada em um reduto de viciados em crack próximo dali. Na verdade ela não deixou Anton tanto tempo preso e sozinho de propósito: para protegê-lo tinha o hábito de trancar a porta por fora quando saía para qualquer lugar, inclusive para comprar drogas, por causa da violência do lugar onde viviam. Mas, sofrendo com os efeitos do vício e sem ninguém para ajudá-la, acabou sendo estuprada por um traficante, que a manteve dopada em cárcere privado durante aquele tempo todo. Apesar de ter sido involuntário esse abandono do filho, ela vai para a prisão e perde a guarda do menino.

 

Anton é adotado, primeiro temporariamente enquanto o julgamento é aguardado, pelo juiz David Coleman e sua esposa Delores. Depois da sentença da mãe, exagerada para o caso dela (mais não posso dizer para não dar spoiler), num sistema de adoção temporária ele continua com o casal Coleman, que perdeu seu único filho adolescente num trágico acidente algum tempo atrás. Mas quando está prestes a terminar a reclusão de Juanita, mãe de Anton, o juiz Coleman, formado em Harvard e com uma carreira política bastante promissora na política norte-americana, usa de seu poder e de suas conexões para adotar definitivamente o menino.

 

O casal Coleman é muito afetuoso com o menino, as cenas de Delores tentando ajudar Anton a pegar o ritmo da escola particular onde agora estuda são de uma ternura ímpar, e ela é sempre amorosa sem nunca deixar de ser severa quando necessário, como qualquer mãe seria. David tem um carinho enorme pelo menino e um nível de exigência grande quanto aos estudos e até no que se refere à prática de esportes, mas também é extremamente afetuoso, criando um vínculo forte e repleto de amor, respeito e carinho entre eles que vai durar por toda a vida. Com poucas lembranças do passado, Anton cresce cercado do amor de sua família adotiva, seguindo até os passos do avô e do pai na política.

 

Durante a adoção de Anton senti muita raiva do juiz Coleman, mas ao ver o carinho, o amor, a dedicação com que ele ia criando o menino e o vínculo de cumplicidade “tão pai e filho” que se formou entre os dois, eu comecei apenas a curtir a história e esqueci as artimanhas que foram usadas lá no começo de tudo. É interessante como a escritora nos leva por um caminho de aceitação e principalmente de esquecimento dos erros cometidos, até nos dar um choque de realidade quando a história está chegando ao fim... Isso é uma das características mais marcantes da escrita de Trinity Umrigar: tratar temas complexos como se fossem rotineiros e banais para depois nos mostrar a realidade tal qual ela é.

 

Então Anton se torna um jovem negro criado como um membro da elite branca e acreditando que isso jamais seria um obstáculo para a sua felicidade e o seu sucesso. Torna-se um jovem promissor, fez várias amizades depois que se adaptou à nova vida, a principal com Bradley Stevens (filho de outro juiz e melhor amigo de David) que desde que ele chegou naquele “mundo branco” se tornou seu amigo para sempre, teve muitas namoradas e se tornou “o jovem solteiro mais cobiçado do estado” quando foi eleito procurador da justiça e mais tarde candidato a governador. Estava tudo indo de acordo com os sonhos de David até Anton descobrir a verdade sobre sua origem e as circunstâncias que envolveram sua adoção! Aí ele tem que repensar quem realmente é, rever suas escolhas e lidar com as complexidades morais dos crimes cometidos pelas pessoas que mais amava na vida. Agora tudo é olhado e sentido por um novo prisma, sua visão da vida não é mais a mesma...

 

Essa é mais uma história de Thrity Umrigar onde ela nos faz surfar por temas complexos e alguns até do nosso dia a dia, sempre com aquela simplicidade da sua escrita que não deixa que esqueçamos a importância do amor, do perdão e principalmente dos laços que formam uma família. Além, é claro, de falar com maestria sobre o lado sombrio da vida...

 

Foi um dos primeiros livros que li esse ano, e se todos que vierem nos próximos meses forem nesse patamar... 2018 vai ser tudo de bom e muito mais!

 

 

 

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Maria Cláudia de Macedo Miranda Marandino

 

Resendense de nascimento e carioca desde os meus três anos, sou professora (aposentada) especializada em alfabetização e pré-escolar. Amo ler pelo simples prazer de ler! Não sou especialista em literatura mas vou colaborar no 1 olhar com o resumo que faço de cada um dos muitos livros que leio na esperança de despertar o leitor que sei que vive dentro de cada um de nós: todos somos leitores, basta que o livro certo nos encontre!

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