Resenha do livro O Caminho De Casa – Yaa Gyasi

24.03.2018

Esse é um livro de uma jovem escritora nascida em Gana e criada nos Estados Unidos que foi publicado em 2016 e que tem como diferencial cada capítulo contando a história de uma pessoa que não vai aparecer de novo. Achei interessantíssima essa forma de narrativa, é como se fosse uma coleção de contos interligados pela genética, tudo feito de uma maneira bem diferente e que dá certo dinamismo à história sem torná-la um thriller, é como se cada capítulo se bastasse embora intimamente ligados uns aos outros, você apenas sente a presença de outros personagens, é uma coisa difícil de explicar, mas muito fácil de perceber durante a leitura.

 

A história é contada alternando as vidas entre os descendentes de Effia e os de Esi, ambas nascidas em Gana (conhecida como Costa do Ouro, colônia britânica na época dessas duas meias-irmãs), acompanhando uma saga familiar de sete gerações em períodos de tempo distintos, dividido em duas partes: antes e após a escravidão e tendo como cenário dois locais diferentes, Gana e Estados Unidos. Resumidamente o que vamos ter é um panorama da vida dos negros nesses dois países desde o século XVIII até o XX, num período que abrange a escravidão e após a abolição da mesma.

 

O romance começa então no século XVIII, com a separação das irmãs Effia e Esi que nasceram em Gana, nem chegaram a se conhecer e foram criadas em lugares diferentes. Só possuem em comum o laço sanguíneo (o pai) e o fato de terem vivenciado de perto a crueldade da escravidão, cada uma a seu modo dentro da realidade de vida de cada uma.

Effia foi vendida para ser ‘esposa’ de um homem branco, James Collins, e passa a viver no Castelo de Cape Coast. Depois do casamento forçado, Effia tem um filho, Quey, que dará continuação a essa história.

 

Esi, ao contrário da irmã, recebeu carinho em sua criação até o dia em que sua aldeia foi invadida e ela raptada, trancafiada e violentada, e daí em diante a sua única alternativa foi tentar sobreviver, pois logo foi embarcada com destino à América, onde foi vendida como escrava. Durante todo seu sofrimento também terá seus descendentes que continuarão a sua história.

 

E é a partir desse ponto, onde as vidas de Effia e Esi são contadas, que a narrativa segue intercalando com os seus descendentes entre Gana e Estados Unidos. E é contado então como cada geração vai lidando com o passado, como a sociedade se comporta em cada momento apresentado, como existem homens brancos que não consideram o negro um ser humano e os efeitos da escravidão na vida de cada um deles e nos lugares onde acontece. Em capítulos alternados e de uma forma sucinta o livro vai cobrir sete gerações dessa família formada por essas duas meias-irmãs.

 

Em Gana o livro nos leva a acompanhar como os britânicos incentivavam as diferentes aldeias para lutarem entre si gerando assim mais prisioneiros e escravos. Também vamos ver como os próprios africanos não tinham problema algum em transformar os perdedores de uma guerra em escravos e os venderem para os homens brancos que pagassem mais, quer fossem eles britânicos, holandeses ou portugueses não fazia a menor diferença, era tudo só uma questão de dinheiro. Ainda em Gana veremos as diferentes guerras tribais, tanto pela independência quanto pela disputa de terras, que traziam grande sofrimento a toda população como em todas as que acontecem mundo afora em qualquer tempo ou lugar (ah, como entendo cada vez menos essa coisa chamada guerra!). Depois da abolição da escravatura teremos uma visão do crescimento das plantações de Cacau - uma das principais fontes de renda do país até hoje - e também, num época mais recente, vamos ver que, apesar de tudo que já se passou e aconteceu para melhor, ainda é muito baixo o índice de desenvolvimento humano no país.

 

Já nos Estados Unidos, através dos descendentes que lá foram parar, veremos como foi grande e cruel o trabalho escravo no país, as dolorosas rupturas familiares quando alguém era vendido ou morto por seu dono, o sofrimento da luta por liberdade e das tentativas de fuga. Depois da abolição teremos um retrato de homens brancos que não aceitaram que os negros são seres humanos e seremos apresentados ao racismo violento que ainda permaneceu em diversos lugares do país. Vamos entender um pouco como aconteceu a grande migração dos negros que viviam no Sul para o bairro do Harlem, em Nova York, tentando conseguir uma vida melhor.

 

Dei só umas pinceladas no enredo e nos cenários onde acontecem as histórias, não falei em todos os personagens porque são muitos e vão mudando a cada capítulo, então espero que tenha bastado um pouquinho de Effia e Esi como ponto de partida para tentar colocar o contexto do livro aqui. Mas não quero passar a imagem de que esse é um livro cansativo por tratar de tantos personagens e momentos históricos diferentes, porque isso é tudo o que ele não é: a narrativa dessa autora é muito leve, seu texto beira o poético em várias passagens e ela sabe dosar as emoções na medida certa.

 

Esse é um livro que vai percorrer desde as guerras tribais em Gana até a escravidão e a Guerra Civil nos Estados Unidos nos dando uma visão panorâmica desse período, trazendo uma carga emocional angustiante por falar basicamente sobre a tensão e o sofrimento acarretados pela escravidão e de todas as consequências para as futuras gerações. Mas me encantou a maneira como foi escrito em capítulos interligados porém independentes, cada um contando a história de uma pessoa que tem tudo a ver com a do capítulo anterior ou a que virá no próximo sem que nunca se misturarem ou mesmo se encontrem. Tudo isso com uma linguagem suave até nos momentos mais densos, que não são poucos.

E mais uma vez me vejo terminando um livro que me faz repensar a definição do que é realmente humanidade (guerras e escravidão são pratos cheios para revermos nossos conceitos...).

 

 

 

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Maria Cláudia de Macedo Miranda Marandino

 

Resendense de nascimento e carioca desde os meus três anos, sou professora (aposentada) especializada em alfabetização e pré-escolar. Amo ler pelo simples prazer de ler! Não sou especialista em literatura mas vou colaborar no 1 olhar com o resumo que faço de cada um dos muitos livros que leio na esperança de despertar o leitor que sei que vive dentro de cada um de nós: todos somos leitores, basta que o livro certo nos encontre!

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