E O PALHAÇO BRASILEIRO? O QUE É?

16.05.2018

 

E O PALHAÇO BRASILEIRO? O QUE É?

PARTE 4: BENJAMIM DE OLIVEIRA E O CIRCO-TEATRO

 

 

O circo-teatro foi uma forma de organização surgida nos circos brasileiros no começo do século XX e que seguiu sendo a estrutura dominante em nossos picadeiros por quase 80 anos. Tratava-se de uma prática artística híbrida, onde a primeira metade do espetáculo era composta pelas modalidades tradicionais de circo - malabares, equilíbrio, acrobacias - e na segunda metade eram encenados espetáculos teatrais - melodramas, dramas sacros, comédias ou chanchadas. As duas partes do espetáculo eram feitas pelos mesmos artistas, que se destacavam tanto em habilidades circenses, quanto em interpretação teatral. Os palhaços também estavam nos dois momentos, fazendo, na primeira parte, números musicais, entradas e reprises, e na segunda parte atuando nas peças, geralmente assumindo os papéis principais.

 

No Brasil as origens do circo-teatro estão ligadas ao trabalho do grande palhaço Benjamim de Oliveira (1870-1954). Negro e filho de escravos, Benjamim nasceu forro, em uma fazenda em Pará de Minas/MG e aos doze anos de idade deixou a família para ir viver no circo. Ao longo de sua carreira foi saltador, artista equestre, trapezista, palhaço, músico, ator, dramaturgo e encenador, tornando-se um verdadeiro marco na história da palhaçaria e do circo-teatro brasileiro.


A vida circense de Benjamim começou no circo de Sotero Vilela, onde ele fazia acrobacias solo e a cavalo. Depois de três anos ali, decidiu escapar, pois era espancado pelo dono do circo. O Brasil ainda atravessava seus tristes tempos de escravidão e, em seu caminho, Benjamin foi abordado por um fazendeiro que desejava prendê-lo, alegando que ele poderia ser um escravo foragido. Ele se salvou graças às habilidades aprendidas, realizando saltos acrobáticos e provando que era um artista circense. Depois disso, foi para São Paulo e ingressou no circo de Albano Pereira e, em 1889, iniciou sua carreira de palhaço. Foi um típico palhaço cantor de modinhas e tocador de vilão, e iria, nas próximas décadas, protagonizar algumas das primeiras gravações realizadas pela nascente indústria fonográfica brasileira.

 

Leia também: E O PALHAÇO BRASILEIRO? O QUE É? PARTE 1


Alguns anos depois se mudou para o Rio de Janeiro e foi trabalhar no Circo Spinelli onde, além de se apresentar como palhaço, passou também a escrever, atuar e a dirigir espetáculos de circo-teatro. A primeira peça escrita por Benjamim, incluindo o texto e a letra das músicas, foi O diabo e o Chico, apresentada em 1906. Esta montagem trazia uma importante novidade para a encenação brasileira: não utilizava ponto(1), exigindo que os atores memorizassem seus textos na íntegra. A partir daí, todos os espetáculos escritos e encenados por Benjamim dispensariam a figura do ponto, colocando o circo-teatro em significativo avanço em relação ao teatro brasileiro, que só o aboliu totalmente o ponto na década de 1950. O diabo e o Chico, anunciada como peça mágica ou farsa fantástica, fez parte do repertório do Circo Spinelli até a década de 1920.


Ao longo de sua carreira, Benjamin escreveu e adaptou mais de 100 textos, realizando montagens criteriosas e audaciosas. Foi um verdadeiro sucesso de crítica e público, sendo elogiado por críticos como Artur Azevedo, que escreveu: “Quando Shakespeare fez Othelo imaginou certamente um tipo como esse que Benjamin representa com tanta força no seu pequeno teatro” (2) . Tendo se tornado um artista de renome, sua fotografia era constantemente divulgada em jornais e vendida nos teatros, circos, cafés-concertos e livrarias, o que na época era sinal de grande sucesso e ascensão social.

 

Disponível em : https://marconegro.blogspot.com.br/2008/02/benjamim-de-oliveira-palhao-negro.html

 

 

Em 1910 Benjamim realizou sua montagem mais ousada: A Viúva Alegre, opereta de Franz Lehar que foi uma verdadeira febre no começo do século XX, sendo apresentada em diversos países ao redor do mundo. Estávamos em plena belle époque carioca, momento em que uma grande reforma urbana pretendeu modernizar a capital federal tomando Paris como modelo. Civilização e modernidade eram ideias centrais do momento e a cidade, profundamente influenciada por padrões europeus, recebia com frequência espetáculos estrangeiros, que lotavam seus teatros e casas shows. Em menos de um ano diversas companhias internacionais apresentaram A Viúva Alegre no Rio de Janeiro, e a peça foi feita em italiano, espanhol, alemão e inglês. A primeira montagem em língua portuguesa chegou ao Brasil em julho de 1909, encenada pela companhia
Galhardo, de Lisboa. Em 1910 começaram a surgir as versões brasileiras da obra: em
janeiro o palhaço-cantor Eduardo das Neves representou uma paródia da opereta, A
sentença da viúva alegre e, em 18 de março estreou, no Circo Spinelli, a montagem
adaptada e encenada por Benjamim de Oliveira.

 

A montagem do Circo Spinelli foi um grande sucesso de crítica e público. A historiadora Erminia Silva fez uma ampla pesquisa nos jornais da época, encontrando diversas publicações que falavam sobre a peça elogiando sua qualidade e relatando a sua excelente aceitação por parte do público. Reproduzo abaixo um trecho do jornal O Paiz, publicado dois dias após a estreia. Embora o documento original, por ser antigo, possua pequenos trechos ilegíveis, é possível perceber com clareza o sucesso da empreitada: “Depois de perambular por todos os teatros da cidade, Anna de Glavary, a boêmia e simpática Viúva Alegre, aboletou-se no circo Spinelli, em S. Cristóvão, de onde não sairá tão cedo. E a linda [ilegível], possuidora de tão sedutores milhões, têm razão por assim proceder. Henrique de Carvalho e Benjamim de Oliveira souberam tão bem acomodá-la ao picadeiro, que ela, por certo, se dará ali perfeitamente bem. A empresa Spinelli montou a Viúva Alegre luxuosamente. Todos os vestuários são novos e os cenários de Lazary dispensam qualquer comentário. Os artistas da troupe Spinelli defenderam brilhantemente a Viúva, sendo, entretanto, justo salientar a Sra. Lili Cardona, que foi uma admirável Ana de Glavary. Enfim, tão cedo a Viúva Alegre não deixará o [ilegível].” (3)

 

As peças representadas em picadeiros foram uma importante forma de democratização do teatro no Brasil, levando espetáculos a todas as camadas sociais, seja nas grandes cidades ou no interior. A prática do circo-teatro se manteve fortemente arraigada nos circos brasileiros até a década de 1980 e ainda pode ser encontrada nos dias atuais. Existiram muitas companhias circenses de pequeno e médio porte que se dedicaram exclusivamente a encenação de peças e, entre os mais velhos, ainda há quem se lembre com gosto de ter assistido aos dramas e comedias apresentados pelos circos itinerantes.

 

1 O ponto era uma pessoa que trabalhava nos espetáculos teatrais, geralmente fora do campo de visão dos espectadores, com o textos nas mãos para “assoprar” as falas caso os atores se esquecessem. Foi uma função muito utilizada no teatro moderno e raramente vista nos dias atuais.

2 CASTRO, Alice Viveiros de. O Elogio da Bobagem – palhaços no Brasil e no mundo. Rio de Janeiro: EditoraFamília Bastos, 2005. p. 173.

3 SILVA, Erminia. Circo-teatro: Benjamim de Oliveira e a teatralidade Circense no Brasil. São Paulo: Altana, 2007.p. 264.

 

Disponível em : 

 

http://tchiasko.blogspot.com.br/2011/04/benjamim-de-oliveira-o-palhaco-negro.html

 

 

  

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Lili Castro

 

Palhaça, comunicadora e atriz. Participa de festivais e eventos nacionais e internacionais. Dá cursos de palhaçaria e circula com o espetáculo solo “O maior prêmio do mundo”. Atualmente cursa o mestrado em Artes Cênicas na UNIRIO, onde desenvolve uma pesquisa sobre a dramaturgia do palhaço.

 

 

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