TEORIA DA ORIGEM DO DISCURSO

15.06.2018

O discurso é mágico. Qualquer que seja ele. Há uma espécie de metamorfose pré programada no genoma de cada ser humano diante de um discurso. Basta que alguém, no meio de um grupo de pessoas, tenha a iniciativa de falar para desencadear a transformação. Subitamente, todos os outros se transformam em ovelhas. Existe um efeito ainda mais incrível. Quando outras pessoas vêem que seus irmãos de DNA se metamorfosearam, elas apressam a própria transformação, vindo se juntar ao rebanho.

 

A metamorfose varia, ainda, de acordo com a intensidade e a qualidade do discurso. Se o falante exibe muita confiança, ou se fala de forma coerente, ou sobe num palanque, ou faz gestos agressivos, ou se convoca as ovelhas a repetir o que ele diz, a metamorfose evolui para outro nível e as ovelhas viram topeiras ou mesmo formigas.

 

A questão que me interessa aqui não é a metamorfose em si. Mas o porquê que ela acontece. Isto é, qual o fator desencadeador da transformação. O que faz com que as pessoas se permitam virar reféns das palavras de qualquer pessoa com uma boa oratória? A resposta está na própria pergunta: as palavras.

 

Estudiosos apontam para um evento ocorrido nos primórdios da história humana, denominado Revolução Cognitiva. Neste evento, muito além do domínio do fogo, do ferro e da agricultura, o ser humano alcançou outro patamar ao conseguir dominar a palavra. Através da palavra, ele conseguiu dominar os seus semelhantes e fazê-los alcançar feitos antes inimagináveis. Ao contrário do que se pensa, não foi a força bruta a responsável por construir as pirâmides, ou o Coliseu, ou o Império Romano. Foi a palavra. A palavra conquista as mentes e os corações. A palavra põe os fortes a serviço dos fracos. A palavra faz multidões cultivarem a mesma crença, o mesmo propósito. No antigo Egito, a classe mais poderosa era a dos Escribas. Seu poder consistia, unicamente, no seu conhecimento da escrita. Ou seja, tinham o poder de materializar as palavras. As palavras têm poder. É um fato.

 

Como, então, podemos fazer para não nos transformarmos em ovelhas, topeiras ou formigas? Como fazer para não sermos levados pelo cajado disfarçado de palavra? Como fazer para bloquear a vontade irresistível de eleger qualquer um como líder apenas pelo seu belo discurso?

 

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A resposta está, justamente, em tentar isolar os elementos. De um lado, o feitiço, de outro, o feiticeiro. A inteligência, que é, a meu ver, o que nos distingue dos animais (o que inclui ovelhas, topeiras e formigas), consiste em enxergar a realidade como ela é (o pensamento não é meu, copiei de J. Krishnamurti, um pensador que, esse sim, elegi como um líder). Quando passamos a enxergar os elementos separados, podemos escolher nos influenciar não pelo poder incutido nas palavras e sim por quem as pronuncia. É o que denomino Teoria da Origem do Discurso.

 

Outro esclarecimento se faz necessário aqui. O advento da palavra não modificou a nossa constituição básica. Nós continuamos sendo seres de ação. Isso significa que as nossas ações nos definem. Somos aquilo que fazemos. Para conhecer bem uma pessoa, observe os seus atos. Nisso também está a mágica das palavras. Elas nos permitem desviar a visão daquilo que somos para aquilo que dizemos.

 

A proteção contra a mágica do discurso está, portanto, em olhar para a pessoa que profere as palavras. Se a pessoa é boa, não há mal nenhum em se deixar levar, pois ela tratará bem a sua ovelha. Mas, se for a pessoa for um lobo com dotes de retórica...

 

 

 

 

 

 

Augusto Gomes Couto

     

Pai e marido em tempo integral, escritor nas horas vagas, Perito Criminal Militar nas horas escravas."

 

 

 

 

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