O poder corrompido: muda-se a estrutura ou mudam-se os indivíduos?

28.07.2018


Depois de uma exaustiva semana de trabalho, me vejo espantado com uma notícia no Jornal Nacional, em que um prefeito da baixada fluminense atende pedidos de um traficante para que o político usasse de sua posição para impedir uma ação de combate ao narcotráfico em uma das milhares de comunidades conflagradas do Estado do rio de Janeiro. De imediato me pergunto o porquê de estar tão surpreso, talvez por ver um falar na televisão, algo que subliminarmente é transmitido em mensagens do cotidiano de quem mora em comunidades, ou já atuou trabalhando em qualquer área do serviço público em uma delas.

 

Corrupção, etimologicamente tem relação com apodrecimento, e é exatamente como me sinto como brasileiro, não existe a maçã podre no meio do povo, existem maçãs em diversos níveis de apodrecimento, seja por estarem corrompidas pela moral em ações, mas sobretudo, pela ética relativista tupiniquim, onde o erro está sempre no problema alheio.

 

O fisiologismo das relações entre o poder público e político e o crime não é nenhuma novidade, no entanto, vemos que do descaso com a gestão para uso de meios ilícitos e pessoais, passamos para uma outra dimensão, a do narco-estado, do aparato eleitoral com sede e força bélica proporcionada pelo tráfico de drogas. Como se já não bastassem as milícias, os santinhos, as cestas básicas e o coronelismo semi-feudal, agora ganhamos a notoriedade da relação podre entre o "pobre varejista de drogas", como a intelectualidade cita o traficante, com a autoridade maior de uma municipalidade.  Chegamos no fundo do poço, ou talvez, perfuramos o fundo do poço para tentar chegar ao Japão pelo epicentro da terra como em um desenho animado do Pica-Pau…

 

De imediato, pensando no município citado, lembrei de caros subordinados que com muita luta e esforço se deslocam desde recrutas, desse distante município para doarem suas vidas ao cidadão carioca, milhares de policiais que nasceram e cresceram nessa condição de clientes da suja política eleitoral comum na baixada fluminense e outros cantos do Rio. Milhares de professores, advogados, enfermeiros e toda uma geração de profissionais que se habituou a entender a política do medo, o voto do interesse, o apadrinhamento na sacanagem.

 

Me pergunto, enquanto vejo as mais estapafúrdias declarações de defesa dos envolvidos, como sempre representados por excelentes e caros doutores das ciências jurídicas, como chegamos aqui. Vemos o filme da história de Pablo Escobar a distância e com certo deslumbramento pelo poder paralelo das FARCs de nossa vizinha Colômbia, mas temos inúmeras pequenas FARCs divididas em milhares de pequenos e grandes "Escobares". Como sempre, brasilianamente, vemos o outro como desastroso, e caminhamos nos fundos de poços abertos diariamente em nossas vidas.

 

A corrupção é estrutural, elástica, vertical, horizontal, visível de todos os ângulos, com lupa ou descarada, mas os julgamentos e julgadores, quase que em regra, até por necessidade da letra fria e positiva da lei, tem como alvo somente os indivíduos e seus valores pessoais. Como se julga uma estrutura? Esta pergunta carrego já há algum tempo. Vejo estruturas antigas, como o Brasil-Colônia serem julgadas, os governos militares sendo amplamente julgados, mas quando julgaremos a nossa geração? Um dia julgaremos as relações profanas entre o público-político e o provado-pessoal? Muitos já escreveram sobre isso, mas acredito que todos grande autores sobre o tema, também se surpreendem com o poder de diversificação das práticas criminosas em detrimento da boa administração, da democrática gestão de recursos, algo que tirando um ou outro louco e corajoso político tenha feito em algum momento da História Brasileira, é o padrão.

 

Continuamos procurando os messias e os ídolos que "mudarão" o país, nos enganando na figura paternal de um salvador da pátria, ou de alguns salvadores do passado, entre barbudos, estrelas douradas e outros senhores feudais que adoram mais a si mesmo que a nação, ficaremos fadados a fazer mais do mesmo e nos encostando em benefícios temporários que a ilusão e o romantismo das falas na política brasileira nos causam…

 

 

 

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JAN VAN CREVELD CARVALHO MONTEIRO

 

Especialista em Segurança Pública pela UFF - INeac, pós graduado em ciências sociais e policial há 14 anos, atualmente no posto de Capitão.

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