Resenha do LIVRO NOSSA SENHORA DO NILO – SCHOLASTIQUE MUKASONGA

28.07.2018

NOSSA SENHORA DO NILO

 

Tenho procurado em pouco mais da literatura africana desde que me dei conta ao ler num artigo o quão pouco sabemos da história da África. Somos bem informados sobre as grandes guerras mundiais, os atentados nos Estados Unidos, o racismo em diversos países, as diferenças de costumes entre o ocidente e o oriente, as divergências religiosas que levam a conflitos, mas enfim... sobre a realidade africana passada e presente ignoramos quase tudo. E é através de muitos livros de ficção, que têm como pano de fundo esses diferentes assuntos, que tomamos cada vez mais conhecimento de uma gama enorme da história real de alguns lugares!

 

Então, eis-me aqui com um livro de Scholastique Mukasonga, nascida em Ruanda e que se tornou uma escritora respeitada mundo afora depois de ter passado pela provação de ver sua família ser quase toda dizimada no genocídio ocorrido em seu país nas décadas de 1990. Nele milhares de tutsi, etnia da escritora, foram dizimados pelo exército da maioria hutu, durante uma guerra civil sangrenta e cruel, como são todas as guerras aliás. Esse trauma e a vontade de salvar a memória da sua família foram os fatores determinantes para que tivéssemos “Nossa Senhora do Nilo” hoje a nossa disposição, já que é um livro até um pouco autobiográfico como ela mesma declarou em diversas ocasiões. Scholastique esteve presente na Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) de 2017, onde falou muito sobre a sua motivação para escrever histórias baseadas em suas experiências. Nossa Senhora do Nilo é um romance forte, mas escrito de uma maneira tocante e simples, que me fez querer ler seu outro livro, A Mulher de Pés Descalços, que pelo que soube está calcado na vida de sua mãe...

 

Mas vamos ao livro da vez. A história se passa no Liceu Nossa Senhora do Nilo, uma escola para meninas, situada nas nascentes do rio Nilo, em Ruanda e Nossa Senhora do Nilo é uma Nossa Senhora negra, protetora de Ruanda. O Liceu abrigava as meninas da alta elite do país, a maioria da etnia dominante (hutu), e entre seus objetivos constavam a preservação da virgindade e o de arranjar bons casamentos.

 

A escola funcionava em regime de internato e as alunas eram filhas de ministros, de militares de alta patente, de homens de negócios e de ricos comerciantes. O casamento de suas filhas era uma questão política e as moças tinham muito orgulho disso: elas sabiam o valor que possuíam, pois seria através delas que suas famílias conseguiriam ter o poder do seu clã fortalecido. E existia um regime de cotas para que algumas alunas da etnia tutsi também fossem admitidas no Liceu. Óbvio que elas eram a minoria da escola e que isso gerasse alguns conflitos.

 

A trama do romance ocorre especialmente quando a jovem Gloriosa, uma espécie de líder entre as alunas, começou a envenenar a escola com as suas pretensões políticas, disseminando a ideologia dominante e inventando fantasmas sobre os ataques tutsis que estariam por ocorrer. Verônica e Virgínia, cotistas da etnia tutsi, eram as suas vítimas preferidas. As brigas entre as adolescentes são o reflexo de toda uma tensão que existia na sociedade ruandesa, e vamos acompanhar as conversas e dúvidas daquelas adolescentes (iguais no mundo todo...) enquanto nos preocupamos com a segurança delas e de suas famílias, e até mesmo de todo o povo ruandês enquanto os conflitos aconteciam fora e dentro do Liceu.

 

Para resumir sem dar spoiler, essa é uma história baseada no que viveu a autora, que conta as experiências-limites pelas quais passaram as jovens do colégio, numa narrativa simples que encanta apesar do peso da crueldade da realidade que norteia o enredo. Vamos ter em muitos momentos, jovens sendo apenas...jovens! E mais do que um retrato da luta fratricida que culminaria no genocídio de 1994, esse romance traz a tensão entre colônia e colonizador, entre dominantes e dominados. Tudo tendo como pano de fundo um Liceu para moças, com todas as dúvidas, conflitos e certezas que existem na cabeça de qualquer jovem na fase da adolescência!

 

Nossa Senhora do Nilo é um livro comovente. Ao mesmo tempo em que a gente ri das conversas das adolescentes, sentimos toda a dor da discriminação e da crueldade. E ao mesmo tempo que acompanhamos uma história interessante e por vezes até cruel entre jovens internas num Liceu, vamos conhecendo também um pouco sobre Ruanda, um pequeno pedaço desse universo chamado África tão desconhecido de nós!

 

#lerédiversão

#leréinformação

#lerébomdemais

#LERÉTUDODEBOM!!!

 

 

 

 

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Maria Cláudia de Macedo Miranda Marandino

 

Resendense de nascimento e carioca desde os meus três anos, sou professora (aposentada) especializada em alfabetização e pré-escolar. Amo ler pelo simples prazer de ler! Não sou especialista em literatura mas vou colaborar no 1 olhar com o resumo que faço de cada um dos muitos livros que leio na esperança de despertar o leitor que sei que vive dentro de cada um de nós: todos somos leitores, basta que o livro certo nos encontre!

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