TEORIA DO TRAMPOLIM

03.08.2018

Se você consegue ler é este texto é porque tem grande chance de ser um humano. E, sendo humano, você, com certeza, já utilizou a ideia contida na teoria do trampolim ou foi vítima dela. Não se preocupe, eu explico.


Esse animal, o humano, tem uma capacidade incrível de superar obstáculos e uma capacidade, igualmente incrível, de utilizar instrumentos. Veja o exemplo de uma criança que não alcança a janela. Ela quer ver, mas o seu tamanho não permite. O que ela faz? Arruma alguma coisa para subir. Algo em que ela vai se apoiar para conseguir alcançar o seu objetivo inicial: olhar pela janela. Pronto. A ideia básica da teoria resume-se a isso: usar uma coisa para alcançar outra. É algo puramente instrumental, uma habilidade básica que os animais minimamente inteligentes dominam.


Bem, dito isto, podemos evoluir o raciocínio. As nossas estratégias mentais, as nossas ideias, os nossos pensamentos, estão, geralmente, voltadas para atingir objetivos. Objetivo nada mais é que uma palavra politicamente correta para descrever a nossa vontade. Nós somos seres querentes. Estamos sempre querendo alguma coisa. A vontade humana é uma coisa infinita e renovável.


Ao longo da “evolução” da espécie, aprendemos que a melhor forma de satisfazer a nossa vontade é através dos instrumentos. Os instrumentos, portanto, passaram a exercer um fascínio sobre o indivíduo, um poder, um objeto de desejo. Ele quer o instrumento porque o instrumento o permitirá satisfazer a sua vontade.
 

Os instrumentos são tão fascinantes que, rapidamente, se tornaram parte do nosso pensamento. Eles se tornaram ideias. E, como ideias, eles possuíram o seu possuidor, dominaram a sua mente. As ideias instrumentais têm, na sua própria origem, um poder de persuasão muito maior que as ideias normais. Elas contém a promessa de satisfação de um desejo, uma vontade. E, com esse poder, elas conseguem induzir o seu possuidor a fazer péssimas escolhas, quase irracionais, a despeito de outras ideias racionais gritarem para serem ouvidas.


Ainda não entendeu? Bem, vou tentar dizer de uma forma mais clara (embora não seja esse o meu forte). Você, provavelmente já vivenciou isso e se deixou seduzir pelas malditas ideias instrumentais. Vou dar um exemplo corriqueiro, bem simples nesse nosso sistema capitalista. Você acaba de chegar em algum lugar (casa, trabalho, shopping, enfim) todo amassado depois de pegar o ônibus e alguém te estende um folheto com vários carros. Você olha. Você sempre teve vontade de ter um carro. Você olha o preço dos carros, analisa as prestações. “Ei, peraí! Não é tão caro assim!”, você acha que pensa mas, na verdade, já está dando ouvidos a alguma ideia instrumental. Só tem um problema. O seu salário não dá para pagar.
 

É nesse momento que as ideias instrumentais começam a se articular. É preciso arrumar alguma forma de ganhar mais dinheiro para poder pagar as prestações para que você possa adquirir o carro. Logicamente, a única maneira que você aprendeu a ganhar
dinheiro é trabalhando. Logo, é preciso trabalhar mais para ganhar mais dinheiro para pagar as prestações e garantir que o seu desejo seja satisfeito. Pronto. As ideias instrumentais conseguiram te convencer.


No final, você estará trabalhando muito mais do que antes, gastando todo o seu tempo livre fazendo alguma coisa chata qualquer em troca de um dinheiro que já está comprometido. Tudo porque você criou o seu próprio trampolim para satisfazer o seu desejo de comprar o carro dos seus sonhos que, por sinal, fica muito mais tempo na garagem. Afinal de contas, gasolina custa caro.

 

 

 

 

Augusto Gomes Couto

     

Pai e marido em tempo integral, escritor nas horas vagas, Perito Criminal Militar nas horas escravas."

 

 

 

 

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